Nos vales dos rios inúmeras cidades surgiram e cresceram, e a trajetória desse crescimento quase sempre não correspondeu a gentileza que a natureza nos legou. Da mesma forma que em torno deles grandes civilizações se constituíram e aprenderam a preservá-los, outras passaram a considerar a sua presença como um estorvo e, após longo processo de degradação, perderam a capacidade de uso de boa parte dos seus recursos. O custo para recuperar o seu potencial é alto.
No livro "Rios e Cidades: Ruptura e Conciliação" Maria Cecilia Barbieri Gorski descreve a importância dos rios no surgimento de grandes cidades.

“O rio permeia as manifestações culturais da mitologia, da história, da literatura, da música, da religião, da filosofia, da pintura, da escultura e do cinema. Para diversas civilizações, sua presença foi, historicamente, sinônimo de riqueza e poder, mas também, por outro lado, de fúria, de força da natureza, tendo potencial destruidor e catastrófico, trazendo doenças, arrasando cidades e dizimando populações.
A lógica norteadora de inúmeras civilizações antigas na seleção do sítio para estabelecer suas aldeias foi a proximidade da água, quer seja por razões funcionais, estratégicas, culturais ou patrimoniais.
A Mesopotâmia, por exemplo, como o nome já explicita, foi construída entre os rios Tigre e Eufrates, e há também as cidades egípcias nas imediações do Nilo, as cidades da civilização greco-romana, junto à bacia do Mediterrâneo e ao rio Tibre, as civilizações orientais nas imediações do Himalaia, as cidades medievais europeias - Londres, ao longo do Tâmisa; Paris, ao longo do Sena; Viena, ao longo do Danúbio; Praga, ao longo do Vlatva.”.
Um passeio, nas asas dos aviões da Panair, por algumas dessas cidades que coexistem com seus rios exuberantes.
Nas asas dos aviões da Panair...
"a maior das maravilhas foi voando sobre o mundo
nas asas da Panair"
Saudade dos aviões da Panair - Milton Nascimento e Fernando Brant
LP Milton Nascimento e Guerra Peixe (1988) – Faixa 2 - IMMuB
Rio Danúbio
O Danúbio atravessa o continente europeu desde a nascente na Alemanha até o Mar Negro na Romênia. Além desses países, também compartilham as suas águas em seus diversos usos, a Áustria, Eslováquia, Hungria, Croácia, Sérvia, Bulgária e Ucrânia. Às suas margens escoam produtos pelos importantes portos de Belgrado, Budapeste, Viena e Regensburg.
Fotos WikimediaCommons (Jakub Hałun, Kiwiev, Michael Gäbler e Diego Celso)
Rio Douro
A cidade do Porto, reconhecida como Patrimônio Mundial, foi construída com vista para a foz do rio Douro e é uma excelente paisagem urbana com 2.000 anos de história.
Fonte: Unesco - Centro Histórico de Porto
Fotos: Wikimedia Commons (Diego Celso e Miguel Proença)
Rio Tejo
Fotos Wikimedia Commons (Vitor Oliveira 1,2 e 4 - Janko Hoener 3)
O Tejo é mais belo
Fernando Pessoa
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."
O Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
Rio Congo
Crianças em Brazzaville, República do Congo, olham para Kinshasa na República Democrática do Congo. O rio Congo e séculos do colonialismo continuam a separá-las. Apesar de suas diferenças, os 15 milhões de pessoas em ambas as cidades estão inexoravelmente juntos.
Fonte: The Guardian
Fotos: The Guardian e Wikimedia Commons (Steev P)
Al Otro Lado Del Rio
Jorge Drexler
"Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
El día le irá pudiendo
Poco a poco al frío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a
En esta orilla del mundo
Lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Yo muy serio voy remando
Muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío"
Rio Sena
“O Rio Sena, em Paris, foi degradado por conta da poluição industrial, situação comum a outros rios europeus. Neste caso, porém houve um agravante: o recebimento de esgoto doméstico.
Por conta de seu estado lastimável, desde a década de 1920 o Sena é alvo de preocupações ambientais. Mas foi apenas em 1960 que os franceses passaram a investir na revitalização do local construindo estações de tratamento de esgoto.”
Fonte: Archdaily - Rios Urbanos
Fotos: Domínio Público - F. de la Mure
Canais de Amsterdã
O conjunto urbano histórico do distrito dos canais de Amsterdã, reconhecido como Patrimônio Mundial, é composto por uma rede de canais a oeste e a sul do centro histórico da cidade e do porto medieval e formam um conjunto urbano homogêneo. Esse modelo de urbanismo em grande escala serviu como referência em todo o mundo até o século XIX.
Fonte: UNESCO
Fotos: 1 Unesco (Robert de Jong) - 2,3 e 4 Wikimedia Commons (Dietmar Rabich)
Rio Amstel
Além de batizar a cidade, há mais de 800 anos as correntes represadas do rio Amstel fornecem água e transporte para Amsterdã. Várias outras cidades surgiram ao seu redor, da mesma forma importantes construções do patrimônio nacional são preservados ao longo do seu curso, que serviu de inspiração para Rembrandt e Mondrian.
Fotos: Wikimedia Commons (Michielverbeek, Slaunger, Txllxt TxllxT, DennisM, Chennell108 e Vincent van Zeijst)
Rembrandt e Mondrian
Rio Neretva
Rio Neretva e a Ponte Velha do Centro Histórico de Mostar em Herzegovina-Neretva Canton na Bósnia e Herzegovina.
A área da Ponte Velha, com suas características arquitetônicas pré-otomanas, otomanas orientais, mediterrâneas e da Europa Ocidental, é exemplo de assentamento urbano multicultural.
Fonte: UNESCO
Fotos: Unesco (Silvan Rehfeld), Wikimedia Commons (Dennis Jarvis)
Rio Tâmisa
O rio Tâmisa na Inglaterra tem sido uma importante rota comercial ao longo de sua história. Antes da construção do sistema de esgoto de Londres, parte do resíduo da cidade era despejado no rio e o seu fedor já foi tão forte que provocou em 1958 a suspensão do Parlamento. O contínuo investimento na despoluição de suas águas garantiu a possibilidade atual da utilização do rio com os seus múltiplos usos.
Fotos: Wikimedia Commons (Carlos Cunha, Krzysztof P. Jasiutowicz, Ввласенко e Diliff)
Thames Barrier
As ondas da maré no rio Tâmisa já provaram no passado o potencial catastrófico para a infraestrutura subterrânea, os edifícios e a população de Londres. A Barreira do Tamisa em Silvertown, concluída em 1982, é uma das defesas contra as inundações.
Ela consiste em 10 portões móveis separados por pilares. Cada portão tem uma face curva que fica em uma câmara rebaixada no leito do rio quando a barreira está totalmente aberta. Quando necessário, os portões giram 90° para a posição fechada, bloqueando o caminho da maré.
Fotos: New Civil Engineer, Wikimedia Commons (Mechtraveller) e Britannica
"Millenium Bridge"
A ponte de pedestre sobre o rio Tâmisa na cidade de Londres é projeto de Norman Foster.
Fotos: Wikimedia Commons (Acabashi e Jan Kameníček)
Claude Monet

O rio, a Ponte de Westminster e o Parlamento na arte magistral de Claude Monet (Ibiblio)
Rio Tibre
Personagem importante no mito da fundação de Roma, ao rio Tibre a cidade deve a sua existência.
Fotos: Wikimedia Commons (Sergey Ashmarin, Jordiferrer, Mr.Ajedrez e Michael LoCascio)
Rômulo e Remo
Rios e Cidades
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