"Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem."
Trecho de "O Cão sem plumas" de João Cabral de Melo Neto
Não seria fácil para o poeta, que sofreu as dores do Capibaribe, passear no que sobrou de rios, arroios, canais, córregos, riachos ou valões na cidade do Rio de Janeiro. Quase sempre em leito estreito e pouco profundo, aqui correm mais de 200 cursos d’água.
Com nascentes predominantes nos Maciços da Tijuca (com um pico de 1021m), da Pedra Branca (com 1024m) e de Gericinó (com 964m), as águas seguem em direção às Baía de Guanabara e Sepetiba, lagoas da Baixada de Jacarepaguá e Rodrigo de Freitas ou diretamente para o Oceano Atlântico.
Foram em grande parte canalizados, escondidos no subsolo e tiveram os seus cursos alterados. Em regra geral estão degradados e os sedimentos que carregam, juntamente com o lixo ou esgoto despejados, contribuem para os eternos problemas de alagamentos e para a poluição das baías e lagoas da cidade.
O esforço para recuperar esse patrimônio, que pode e precisa seguir o mesmo caminho de outras metrópoles que em algum momento também viraram as costas para os seus rios, não é mais obra de especialistas ou somente do poder público.
Hoje qualquer iniciativa urbanística que ouse alterar essa rota de destruição só será possível com a mobilização e participação de toda a comunidade carioca.
Fontes:
Hidrografia da Cidade do Rio de Janeiro - Data.Rio
Rio Carioca
Foz do Carioca no Aterro do Flamengo
“Muito antes de existir o Rio de Janeiro existia o Rio Carioca”
Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde
Apesar da sua importância no passado, o rio Carioca está quase todo canalizado, escondido no subsolo da cidade e utilizado para o transporte de esgoto pelos moradores do seu entorno. Só é visível na área da mata, na sua nascente nas Paineiras, no Largo do Boticário e na foz, na praia do Flamengo. Percorre canalizado os bairros do Cosme Velho, Laranjeiras e Catete.
Nas primeiras décadas de ocupação da cidade ele foi a principal fonte de abastecimento de água. Teve as suas águas distribuídas por chafarizes, o primeiro foi no Largo da Carioca, e pelo Aqueduto da Carioca, conhecido como Arcos da Lapa.
"No Rio Carioca banhavam-se os indios Tamoyo que cultuavam a sua magia, pois suas águas, segundo as crenças, davam beleza às mulheres e virilidade aos homens."
Placa no Largo do Boticário - Cosme Velho
"Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?"
Trecho de "Morte e vida severina" de João Cabral de Melo Neto

Arcos da Lapa - O Aqueduto da Carioca
Rio Maracanã

O Rio Maracanã, que em tupi guarani significa papagaio, tem a sua nascente nas encostas do Maciço da Tijuca, percorre com os seus 10,1 km os bairros Alto da Boa Vista, Tijuca, Maracanã e Praça da Bandeira, e desemboca no Canal do Mangue. Os rios Joana e Trapicheiros são seus principais afluentes.

Nesse ponto, na Rua Garibaldi, próximo ao antigo Bar da Dona Maria, foram jogadas as cinzas do amigo Fernando Toledo.
Em homenagem póstuma ao Fernando, Fausto Wolff, que também já nos deixou, escreveu no JB o "Réquiem para um girassol" e encerrou lembrando que "A morte levou um homem que tornaria qualquer rua, qualquer cidade do mundo um lugar melhor para se morar, um criador. Talvez houvesse descoberto coisas que não interessava ao Infinito revelar. Por isso o levaram. Como quem corta um talo de girassol com uma espada."
"Quando eu ficar assim
morrendo após o porre
Maracanã, meu rio,
ai corre e me socorre
Injeta em minhas veias
teu soro poluído
de pilha e folha morta,
de aborto criminoso
de caco de garrafa
de prego enferrujado
dos versos do poeta
pneu de bicicleta
Ai, rio do meu Rio,
Ai, lixo da cidade
de lâmpada queimada
de carretel de linha
chapinha premiada
e lata de sardinha
o castigo e o perdão
o modess e a camisinha
o castigo e o perdão
o modess e a camisinha
Ai, só dói quando eu rio,
Maracanã, meu rio
Maracanã, meu rio
Ai, só dói quando eu rio"
Aldir Blanc / Paulo Emílio - Valsa do Maracanã
LP Rio, Ruas e Risos - Aldir Blanc e Maurício Tapajós – 1984 – Faixa 9 – IMMuB
Rio Joana
A extensão do rio Joana é de 5,5 km e sua vertente fica no Morro do Elefante, na confluência dos rios Andaraí e Jacó. Ele atravessa os bairros de Grajaú, Andaraí, Vila Isabel e Maracanã. O rio dos Cachorros (Maracanã) é seu afluente.

Com o programa de controle de enchentes da Grande Tijuca o Rio Joana teve parte de seu curso desviado para reservatórios (piscinões) nas praças da Bandeira, Varnhagen e Niterói. O objetivo é jogar parte de suas águas diretamente na Baía de Guanabara, evitando a sobrecarga da Bacia do Canal do Mangue.
O desvio tem 1.012 m de galeria e 2.400 m com um túnel de drenagem urbana que passa sob o Maracanã, o Morro da Mangueira e a Avenida Brasil.
Foz do rio dos Cachorros (Maracanã) e rio Joana na Av. Professor Manoel de Abreu.
Desvio do Rio Joana e Túnel de Drenagem durante a construção.
Rio Trapicheiros
Com vertente na Serra da Carioca o rio Trapicheiros percorre os bairros da Tijuca e Praça da Bandeira e tem a sua foz no rio Maracanã.

Placa no Largo São Maron, Tijuca.
Av Heitor Beltrão, Tijuca.

Rio Trapicheiros - Foto de 1929
Rio Comprido
O rio Comprido tem sua vertente na Serra da Formiga e no Morro do Sumaré, com a extensão de 4,5 km percorre os bairros de Alto da Boa Vista, Santa Tereza, Rio Comprido e Praça da Bandeira. A sua foz é no Canal do Mangue na altura do Trevo dos Marinheiros.

E o rio lembra o viaduto que lembra a música e a emoção de um Brasil sofrido mas em luta, que aparece na canção que se transformou no hino da anistia.
"Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil!
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar"
João Bosco e Aldir Blanc - O bêbado e a equilibrista
Canal do Mangue
Com o objetivo inicial de secar a vasta superfície alagada mais tarde conhecida como Cidade Nova, reduzindo-a a um estreito canal que recebesse as águas pluviais e a dos riachos da redondeza, em 1860, juntamente com o Gasômetro no Aterrado, é inaugurado o primeiro trecho do canal, que se estendia até a Ponte dos Marinheiros. Após o aterro do saco de São Diogo, grande manguezal que unia a área de São Cristóvão ao Paço Imperial, se completa o traçado atual do Canal do Mangue, que inicia na Praça XI e deságua na Baía de Guanabara.
São afluentes ao canal os rios Papa-Couve, Comprido, Maracanã e o remanescente do Joana.
Fontes: Reficio, A partir de texto original “Canal do Mangue”, por Charles Julius Dunlop
Avenida Francisco Bicalho
Avenida Presidente Vargas
A entrada da Avenida do Mangue 1911 - BN Digital
Avenida Mangue - Ribeiro, Antônio Caetano da Costa - BN Digital
Avenida do Mangue e Fábrica de Gás - Coleção Dunlop (Domínio Público)

Rio Faria
Com 8,0 km de extensão o Rio Faria tem a sua nascente na Serra dos Pretos Forros e percorre os bairros de Água Santa, Piedade, Encantado, Engenho de Dentro, Inhaúma e
Higienopólis, onde se encontra com o Rio Timbó formando o Canal Faria-Timbó. São afluentes os rios Faleiro, Méier e Frangos.

Vista da passarela na Linha Amarela em Inhaúma. Ao fundo o Morro do Alemão.
Av. Henriete de Holanda Amado no Engenho de Dentro.
Deságue do rio Méier no rio Faria, na mesma avenida.

CG Silva
Aquele beijo
Nunca esqueci,
Haveria estrelas
No céu,
Acaso eu,
Aquele beijo?
Certa feita,
Vi enamorado o Tajo em Toledo,
Depois, vi solitário o Tejo em Lisboa
Cruzando a ponte Vasco da Gama,
Mas não vi o rio
Que banhava a aldeia de Pessoa.
Em Paris, vi o afogo Sena
E a Pont Royal de Camus,
Nenhuma jovem
Com a nuca fresca e molhada
Para me salvar da angústia.
O Rio da Prata
Nada me disse,
Chovia e fazia muito frio,
Nenhum romance portenho,
Exceto na esquina da Garay,
Onde o Aleph.
Ah! Mas o Timbó,
Afluente do meu desespero,
Banha o subúrbio,
Os primeiros anos,
Aquele beijo,
As águas escuras
Da minha existência,
Essa incolor solidão.
O Timbó carrega suas dores,
Depositados todos os comprimidos
Na baía do estômago.
Para onde escorre esse rio
Que nunca me traz um baixio?
Rio Méier
A nascente do Rio Méier fica no Morro da Boca do Mato e ele atravessa, com seus 3,47 km de extensão, os bairros de Méier, Todos os Santos e Engenho de Dentro.

Rio Méier em Engenho de Dentro próximo a sua foz.
Rio Faleiro
O Rio Faleiro é afluente do Faria, percorre os bairros de Piedade, Abolição e Pilares e tem 2,8 km de extensão.


Canal do Cunha
As águas dos rios Faleiros, Frangos, Méier, Faria Timbó, Salgado, Jacaré e Dom Carlos, além dos canais de Benfica e Manguinhos, desaguam em uma única saída para a baía: o Canal do Cunha.

Fotos 3 e 4 - Mário Moscatelli
O Canal do Cunha é o escoadouro de uma região hidrográfica extremamente fragilizada ambientalmente com afluentes de resíduos industriais e domésticos, além de um contínuo processo de agressão às suas nascentes e margens, cujo resultado são as enchentes e os deslizamentos de terra. O adensamento populacional sem prévias preocupações urbanísticas, agravado pela injustiça da desigualdade social e da usurpação de direitos formam o cenário distópico de cidade excludente e degradação ambiental.
Canal da Penha
A extensão do Canal da Penha é de 3,9 km e ele percorre os bairros da Penha e Penha Circular. Inicia na confluência com o rio Irajá e deságua na Baía de Guanabara. São afluentes o rio Escorremão e o canal Grugaí.
Fotos: Mário Moscatelli
Rio Acari
Rio dos peixes acarás em Tupi, o rio Acari percorre com os seus 20 km os bairros de Marechal Hermes, Barros Filho, Coelho Neto Acari e Jardim América. A sua nascente fica na confluência dos rios Sapopemba e Tiquiri em Guadalupe, cujas nascentes estão na serra de Gericinó, e sua foz no rio Meriti no Jardim América. São afluentes, além dos citados, os rios dos Cachorros I e II, das Pedras (Coelho Neto) e Calogi.


Rio das Pedras (Coelho Neto)
O Rio das Pedras atravessa os bairros de Vila Valqueire, Praça Seca, Campinho, Oswaldo Cruz, Bento Ribeiro, Rocha Miranda e Coelho Neto, onde deságua no Rio Acari. São afluentes os rios Sanatório, Fontinha e Ninguém.
Rio das Pedras - Rua dos Diamantes - Rocha Miranda

Rio Sanatório
Percorrendo os bairros de Turiaçu e Rocha Miranda, com 3,5 km, o rio Sanatório deságua no rio das Pedras.

Rio dos Cachorros I
O rio dos Cachorros é nome recorrente na hidrografia carioca. São encontrados homônimos no Irajá, na Tijuca e no Jardim América. Esse último inicia o seu curso próximo à Estrada da Água Grande, desce as ruas Lupicínio Rodrigues e André Filho e atravessa a Avenida Brasil e Rodovia Presidente Dutra antes de chegar ao Jardim América.
A sua foz fica no Rio Acari, na confluência com o Rio Meriti, já se aproximando do deságua na Baía de Guanabara.



Rio dos Cachorros II
Com 6,3 km de extensão e deságue no rio das Pedras, o rio dos Cachorros II fica no bairro de Irajá.


Rio Quitungo
O rio Quitungo atravessa os bairros de Vila Cosmos, Vila da Penha, Brás de Pina e Cordovil, onde fica a sua foz no rio Irajá.

Rio Irajá
Com 8,2 km de extensão, o rio Irajá atravessa os bairros de Vicente de Carvalho, Irajá, Brás de Pina e Cordovil. A sua nascente fica na Serra do Juramento e a foz na Baía de Guanabara. São afluentes os rios Bicas, Quitungo, Arapogi e os canais Castelo Branco e da Penha.
Rio Irajá - Av. Pastor Miranda Pinto - Irajá
Canal do Jardim de Alah
Com pouco menos de 1 km de extensão da Lagoa Rodrigo de Freitas até a praia, o canal do Jardim de Alah separa os bairros de Ipanema e Leblon.
A comporta no canal é a única ligação da Lagoa Rodrigo de Freitas com o mar e ajuda a controlar o seu nível d'água.
Canal da Visconde de Albuquerque
Percorrendo a avenida com o mesmo nome no Leblon, o Canal Visconde de Albuquerque recebe as águas do rio Rainha, que tem a sua nascente no Alto da Boa Vista, e deságua no Oceano Atlântico.
As seções estranguladas em diversos pontos do canal são provavelmente causadores de alagamentos na região.
Canal de Sernambetiba
Localizado no bairro de Recreio dos Bandeirantes, o Canal de Sernambetiba forma-se a partir do encontro dos rios Vargem Grande e Morto. São também afluentes o Canal das Piabas e os rios Bonito e Cascalho. O seu deságue é no Oceano Atlântico.
Vista da Praia da Macumba - Recreio dos Bandeirantes
Estrada Vereador Alceu de Carvalho - Recreio dos Bandeirantes
Arroio Fundo e Rio do Anil
O Arroio Fundo, que tem a extensão de 3,7 km, surge na confluência do Arroio Banca da Velha com o Rio Grande em Jacarepaguá. São afluentes o Canal Isabel Domingues e o Rio do Anil. Deságua na Lagoa de Camorim.
Já o Rio do Anil, cuja extensão é de 2,8 km, nasce na confluência do rio Quitite com o córrego Panela. São seus afluentes o rio dos Passarinhos (Anil) e a vala da Antártica.
O Arroio Fundo e o Rio do Anil, com as lentes do biólogo Mário Moscatelli.
Rio das Pedras (Jacarepaguá)
O rio das Pedras em Jacarepaguá tem a sua nascente na Serra dos Três Rio, no Maciço da Tijuca e sua foz na Lagoa da Tijuca. Com a extensão de 3,8 km, é seu afluente o rio do Retiro.
O rio das Pedras e o Sistema Lagunar de Jacarepaguá com as lentes reveladoras do biólogo Mário Moscatelli, as quais denunciam a insensatez com que tratamos os nossos rios, lagoas e baías.
Rio Piraquê
O rio Piraquê surge na confluência do rio Cabuçu com o valão José Sena, próximo à ponte na avenida D. João VI, em Guaratiba. Sua extenção é de 3,1 km e deságua na baía de Sepetiba. São afluentes os valões das Cinzas e das Pedras, o rio ABC e o canal do Jardim Garrido.
Rio Piraquê, próximo à Estrada da Matriz - Fotos: Mário Moscatelli
Rio Guandu
O Rio Guandu é o principal responsável pelo abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
O seu volume é resultado de um sistema que inicia na cidade de Barra do Piraí, onde a Usina Elevatória de Santa Cecília transpõe as águas do rio Paraíba do Sul em direção ao Rio Piraí e posteriormente Ribeirão das Lajes, que na confluência com o Rio Santana se denomina Rio Guandu. O seu curso final retificado, em Santa Cruz, leva o nome de canal do São Francisco e deságua na Baía de Sepetiba.


Seropédica-Nova Iguaçu - Captação da ETA Guandu - Foto: Divulgação-Comitê Guandu

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